terça-feira, 19 de outubro de 2010

VISTA O SERRA


Clique na foto para ampliá-la, recorte, vista o candidato e ponha sobre a mesa para incomodar os amigos.
Pescado no Bacia das Almas

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Lições de Osminda - 2

Joana
Olhei nos olhos da menina linda que trazia duas xícaras de café fumegante. Lá fora a chuva começava a cair, decidimos passar a noite por lá, pois começava a escurecer.
Joana, no auge de seus 18 anos, neta de Osminda também passaria a noite com a avó.
Já começava a me incomodar comigo mesmo, não conseguia desviar os olhos de Joana nem que quisesse, seus olhos verdes sempre se encontravam com os meus...
Na rede, ouvi a voz de Osminda que do outro quarto à luz opaca do candeeiro estava deitada com a neta:
"...lí uma vez o Mário Quintana, dizia "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver."... A morte é onde mora a saudade... Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto..."
Pensei nisso. Alí no meio da caatinga, uma professora aposentada, escolheu aquele canto da terra para morrer, mas envelhecia com tanta sapiência, tanta tranquilidade que parecia adiar esse momento.
Estranhamente toda a conversa do dia e parte da noite, girou em torno da morte...
Agora, ouvindo ela citar Mário Quintana e Cecília Meireles, percebi na sua voz que ela tinha medo de morrer, porque tinha medo de sentir dor ou porque a vida era muito boa, devia ter medo de ficar só,porque na hora da morte nem todos querem tocar sua mão, porque você não é mais dono dos momentos, de nada, você está prestes a ir...
"... não queria que o tempo voltasse, que minha pele fosse fina e macia como antes... estou feliz assim, aprendi a conviver com a velhice, e agora estamos todos pensando na morte e todos pensam que eu irei primeiro... não me importaria em ir, em abandonar esse corpo, não me importaria mesmo, mas ainda tenho que esperar que a galinha ponha uns ovos para meu bolo de aniversário, por isso não poderei morrer..."
Rimos em silêncio, e em silêncio a noite foi ficando densa...
Acordei pela madrugada, com o corpo quente e com cheiro de flor de laranjeira de Joana se aninhando ao meu sob os lençóis. A rede me parecia o melhor lugar do mundo e a morte uma idéia distante.

sábado, 16 de outubro de 2010

Tô criando um cururu!

Tem muita coisa tôsca na net, essa é uma delas!
Mas se pudéssemos escolher entre isso e as grandes produções dos Hipertensões, BBB's e Fazendas's, seria mais interessante valorizar a criatividade do povo brasileiro, pois aqui pelo menos não tem gente se delgadiando ou tendo que tomar suco de barata para entretenimento bizarro...

Lições de Osminda 1


Tínhamos andado por toda a manhã. O sol causticante da caatinga parecia inclemente no sertão de Canudos, podia-se ver e ouvir as favelas estourando, como se libertassem da casca.
Osminda nos recebeu com um belo sorriso sem dentes. O cheiro de carneiro cozido tomava conta do ar dentro da casinha humilde e limpa, e uma brisa fresca que entrava pela porta da cozinha contrastava com o inferno lá de fora.
A grande mesa de madeira coberta com plástico branco com grandes hibiscos vermelhos em destaque.
Nada de geladeira, microondas, tvs, essas coisas do mundo de fora, que não saberia usar, nem lhe seriam uteis.
Contou-nos uma história de sua infância enquanto colocava na mesa um fumegante prato de carne.
Lá fora um redemoinho próximo à cisterna.
Nos disse Osminda olhando pela janela da cozinha:
"... sabe? acho que a grande coisa que a igreja faz com a gente é meter medo... temos medo de tudo e a culpa é dos padres e dos pastores, temos medo dos sem-terra porque eles podem acabar com os grandes proprietários, temos medo dos gays porque eles podem acabar com a familia, temos medo do dinheiro porque poderia nos afastar de Deus, temos medo da pobreza porque odiaríamos a Deus... Tudo é baseado no medo..."
Osminda era assim, falava do nada, depois ficava em silêncio como que pensando em suas próprias palavras.
Nós apenas andávamos na caatinga para comer de sua inteligência e de seu carneiro guizado.
Ficamos em silêncio, como sempre...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

LOUCURA


Cai minha lágrima como sangue
ardente, teimosa, cadente, soluçante,
Cai minha lágrima como ácido
lâmina fina, em risco cortante...

São os olhos dela, equidistantes
que se lançam para o infinito
me obrigando latente solidão
que há séculos em poemas evito

Em seus seios dormem meu versos
ardentes, teimosos, cadentes, soluçantes
são loucos, sem mente, vazios, diversos

essa menina de olhos cruéis e anos poucos
vai-se para o infinito em vôo razante
e eu nas ruas, junto-me aos errantes loucos...




A viagem


Uma a uma as telas vão se acumulando ao lado da sala numa tão bela e organizada bagunça que o artista nela vê uma outra obra de arte.
De olhos e bigodes grandes ele não sente mais o cheiro da tinta que ainda incomoda alguns vizinhos que de vez em quando aparecem nas calçadas.
Dorme pouco, sua mente não consegue parar, por isso pinta, pinta e pinta e acumula os seus belos quadros ao longo do casarão com histórias grudadas nas paredes...
Não se lembra do passado, de quando criança, das brincadeiras, de nada, na verdade nem lembrava se já fora criança um dia...
Sua mão nervosa pintava, pintava e mais nada sabia fazer...
Um dia acordou lembrando de algo, era o vulto de uma mulher e como sempre sentou-se frente ao cavalete ao lado das tintas e pincéis, mas estranhamente não conseguiu traduzir o que sentia.
Frustrado o dia passou!
Outros dias foram chegando e passando e o artista não pintava mais...
Agora começava a lembrar do passado, dos dias de chuva nas ruas de Petrolina, dos banhos de rio e das brincadeiras com amigos.
A solidão começou a lhe incomodar, lembrou que não tinha mais amigos, que sequer conhecia seus vizinhos.
Passeando por entre os quadros se sentiu absorvido por eles, viajou em cada um, grandes lagos, montanhas, desertos... Nenhuma mulher, criança, homem, não havia pessoas nem animais em seus quadros, em vão procurou a mulher de seus pensamentos...
Ao voltar em si o artista viu seu corpo caído ao chão, pessoas estranhas entravam e saíam do antigo casarão, bombeiros, policiais, médicos, e por fim os homens do IML.
Continuava sem vida..


domingo, 25 de julho de 2010

O Batizado


Mais um texto do Rubem Alves

Sérgio, meu filho, me fez um pedido estranho. Pediu-me que preparasse um ritual para o batismo da Mariana, minha neta. Eu lhe disse que, para se fazer tal ritual, é preciso acreditar. Eu não acredito. Já faz muitos anos que as palavras dos sacerdotes e pastores se esvaziaram para mim, muito embora eu continue fascinado pela beleza dos símbolos cristãos, desde que sejam contemplados em silêncio.

Ele não desistiu e argumentou: “Mas você fez o meu casamento.“ De fato. Lembro-me de como ele encomendou o ritual: “Pai, não fale as palavras da religião! Fale só as palavras da poesia!“ E assim foi. Foram textos do Cântico dos Cânticos, poema erótico da Bíblia, que deixa ruborizadas as faces dos beatos e beatas: “Teus dois seios são como dois filhos gêmeos de gazela! Teus lábios gotejam doçura, como um favo de mel, e debaixo da tua língua se encontram néctar e leite...“ Divirto-me pensando na cara que fariam Papa e bispos se lessem esses textos... Seguiram-se textos do Drummond, do Vinícius, da Adélia - tudo terminando não com a chatíssima Marcha Nupcial, mas com a Valsinha, do Chico, ocasião em que os convidados, moços e velhos, pegaram os seus pares e trataram de dançar. Foi bonito. Quando a coisa é bonita a gente acredita fácil.

Lembrei-me, então, de um trecho do livro Raízes negras - onde se descreve o ritual de “dar nome“ ao recém-nascido, numa tribo africana.

Omoro, o pai, moveu-se para o lado de sua esposa, diante das pessoas da aldeia reunidas. Levantou então a criança e, enquanto todos olhavam, segredou três vezes nos ouvidos do seu filho o nome que ele havia escolhido para ele. Era a primeira vez que aquele nome estava sendo pronunciado como nome daquele nenezinho. Todos sabiam que cada ser humano deve ser o primeiro a saber quem ele é. Tocaram os tambores. Omoro segredou o mesmo nome no ouvido de sua esposa, que sorriu de prazer. A seguir foi a vez da aldeia inteira: “O nome do primeiro filho de Omoro e Binta Kinte é Kunta!“ Ao final do ritual, após desenvolvidas todas as suas partes, Omoro, sozinho, carregou seu filho até os limites da aldeia e ali levantou o nenezinho para os céus e disse suavemente: “Fend kiling dorong leh warrata ke iteh ted“:“Eis aí, a única coisa que é maior que você mesmo!“

Essa memória me convenceu e tratei de inventar um ritual de “dar nome“, já que nenhum eu conhecia que me agradasse.

Organizei o espaço do living. Empurrei a mesa central, baixa, na direção da lareira. À cabeceira coloquei um banquinho velhíssimo - ali a Mariana se assentaria. Ao lado, duas cadeiras, uma para o pai, outra para a mãe. Na ponta da mesa, uma grande vela. É a vela da Mariana, vela que a acompanhará por toda a sua vida, e que deverá ser acesa em todos os seus aniversários. Ao lado da sua vela, duas velas longas, coloridas. E, espalhadas pela sala, velas de todos os tipos e cores. Na ponta da mesa, ao lado da vela da Mariana, um prato de madeira com um cacho de uvas.

Reunidos todos os convidados, começou o ritual. Foi isso que eu disse: “Mariana: aqui estamos para contar para você a estória do seu nome. Tudo começou numa grande escuridão.“ As luzes se apagaram enquanto, no escuro, se ouvia o som da flauta de Jean Pierre Rampal.

“Assim era a barriga da sua mãe, lugar escuro, tranqüilo e silencioso. Ali você viveu por nove meses. Passado esse tempo você se cansou e disse: ‘Quero ver luz!‘ Sua mãe ouviu o seu pedido e fez o que você queria. Ela ‘deu à luz‘. Você nasceu.“

A mãe e o pai da Mariana acenderam então a vela grande, que brilhou sozinha no meio da sala.

“Veja só o que aconteceu! Sua luz encheu a sala de alegria. Todos os rostos estão sorrindo para você. E, por causa desta alegria, cada um deles vai, também, acender a sua vela.“

Aí o padrinho e a madrinha acenderam as velas longas coloridas, e os outros todos acenderam, cada um, uma das velas espalhadas pela sala.

À chegada dos convidados eu havia dado a cada um deles um cartãozinho, onde deveriam escrever o desejo mais profundo para a Mariana. Continuei:

“Você trouxe tanta alegria que cada um de nós escreveu, num cartãozinho, um bom desejo para você. Assim, pegue esta cestinha. Vá de um em um recolhendo os bons desejos que eles escreveram. Esses cartõezinhos, você os vai guardar por toda a sua vida...“

E lá foi a Mariana com a cestinha, seus grandes olhos azuis, de um em um, sendo abençoada por todos.

“Todos deram para você uma coisa boa“, eu disse depois de terminado o recolhimento dos cartões. “Agora é a hora de você dar a todos uma coisa boa. Você é redondinha e doce como uma uva. Esta é a razão para este cacho de uvas. E é isso que você vai fazer. Seus padrinhos vão fazer uma cadeirinha e você, assentada na cadeirinha, vai dar a cada um deles um pedaço de você, uma uva doce e redonda...“

E assim, vagarosamente, a Mariana celebrou, sem saber, esta insólita eucaristia: “Esta uva doce e redonda é o meu corpo...“

Terminada a eucaristia, eu disse à Mariana:

“Agora, chegando ao fim, cada um de nós vai dizer o seu nome. Preste bem atenção. O nome é um só. Mas cada um vai dize-lo com uma música diferente. Porque são muitas e diferentes as formas como você é amada.“

E assim, iluminados pela luz das velas, cada um dos presentes, olhando bem dentro dos olhos da menina, ia dizendo: “Mariana“, “Mariana“, “Mariana“, “Mariana“...

Aqueles que olhavam os olhos da Mariana puderam ver que, à medida que ela ouvia o seu nome sendo repetido, eles iam se enchendo de lágrimas...

(Transparências da eternidade, Verus, 2002)