sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ser Evangélico

Nós não precisamos abandonar nosso nome – apenas viver de acordo com ele.

Philip Yancey

Fonte: Cristianismo Hoje

Nos dias de hoje, o crescimento do evangelho transformou-se em um fenômeno global. Enquanto que as igrejas mais tradicionais mudam lentamente, os chamados evangélicos tendem a dar passos mais leves, adaptando-se rapidamente às tendências culturais.

O Jesus Movement (movimento de Jesus), o movimento das igrejas nas casas, as igrejas emergentes, e tantos outras propostas diferenciadas de se fazer uma igreja nesses tempos pós-modernos crescem na América Latina, na África, no Oriente Médio – e também na América Anglossaxônica e na Europa. Parece que os cristãos estão aprendendo novas formas de ser e de fazer igreja. A ideia parece ser a mais pragmática possível: se uma técnica não funciona, então encontremos uma que funcione. Nesta onda, as bandas de louvor substituíram os órgãos e corais, as apresentações em PowerPoint e clipes de filmes animam os sermões e lanchonetes que servem café ajudam a manter os fiéis ligados.

A inovação sempre deve ser admirada, mas é preciso lembrar que imitar tendências culturais tem seu lado negativo. Em uma recente conferência para obreiros de jovens da qual participei, o louvor era um DJ tocando música techno no volume de turbina de avião, enquanto um público suado pulava e gritava correndo o risco de soar antiquado, não pude deixar de questionar a profundidade da adoração. Os seminários agora recomendam preparar sermões de 15 minutos em função do menor nível de atenção. As editoras querem livros mais finos com palavras e conceitos mais simples. Será que logo vamos ter um evangelho do Twitter com 140 caracteres?

Talvez devêssemos apresentar uma alternativa à cultura dominante ao invés de simplesmente adotá-la. Como seria a igreja que criasse um espaço para tranqüilidade e que contrariasse a tendência ao estrelismo e se desconectasse da mídia que nos cerca e que criasse uma resistência ativa contra uma cultura consumista?

Como seria a nossa adoração se fosse direcionada mais para Deus e menos para satisfazer as nossas preferências de entretenimento?

Nós temos muito a aprender com outras tradições cristãs. Apesar de todo o seu destaque atual, os evangélicos compõem uma fatia pequena do mundo. Um pouco menos de um terço do mundo se identifica como Cristão.

Destes, quase dois terços são Católicos ou Ortodoxos. Dos Cristãos restantes que compõem apenas 10 por cento da população mundial, eles resistiriam ao rótulo de evangélico.

Quando escrevi um livro sobre oração aprendi mais com os católicos do que com qualquer outro grupo. Afinal de contas eles tem dedicado ordens monásticas inteiras a praticarem a oração. Dos Ortodoxos eu aprendo sobre mistério e reverência. Na música, na adoração, na teologia eles me ensinam sobre o mysterium tremendum que acontece quando nós, meros humanos, nos aproximamos do Deus do universo.

Quando avalio o evangelicalismo, principalmente o norteamericano, eu vejo muita coisa boa, mas também vejo que há muito espaço para melhorias. A nossa história inclui a desunião – de quantas denominações diferentes são os leitores desta revista? – e um passado que inclui lapsos de ética e julgamento. Nós trouxemos energia à fé, mas também divisão. Nós celebramos a transformação do indivíduo, mas muitas vezes ficamos aquém do nosso alvo maior de transformar a sociedade.

Fico entristecido quando ouço a caricatura que a mídia faz dos evangélicos como sendo direitistas fanáticos. A palavra de Deus significa “Boas Novas” e eu tenho visto esta mensagem sendo transmitida de forma criativa e prática em mais de 50 países. Mas, eu posso ver aonde a mídia consegue encontrar os seus estereótipos. Eu tenho um arquivo com e-mails abrasadores que foram espalhados durante a eleição presidencial americana de 2008 e agora uma coleção mais recente alimentando temores sobre a reforma do sistema de saúde. Estes e-mails se somam a uma pasta maior sobre questões homossexuais. Nem sempre os Evangélicos encontraram uma maneira de combinar atos de amor com um espírito amoroso.

Em uma tendência encorajadora a divisão do Evangelho fundamentalista-social que marcou a igreja há um século, desde há muito tempo está desaparecido. Agora as organizações evangélicas lideram os esforços em ajuda humanitária e desenvolvimento, microcrédito, ministérios com HIV/AIDS e alcançando os profissionais do sexo. Eu visitei ministérios que estavam prosperando no meio de lixões na periferia de cidades como Manila, Cairo e Guatemala City. Os Evangélicos realmente levaram a sério o chamado de Jesus para cuidar dos “menores destes” (dos menos favorecidos)

Recentemente eu ouvi o seguinte relato de um amigo que visitou um bairro carente na cidade de São Paulo, Brasil. Ele estava ficando muito preocupado pois notou que os traficantes estavam guardando a comunidade com armas de fogo automáticas. Eles lhe estavam encarando, pois era um gringo que estava invadindo o seu território. “Aí então o chefão daquela vizinhança reparou na minha camiseta que tinha a logomarca de uma igreja pentecostal local. Ele abriu um sorriso bem grande: “Ó, evangélicos!” ele gritou e veio nos abraçar. Por vários anos aquela igreja havia cuidado das crianças daquela comunidade e agora éramos recebidos com alegria.”

Alguns dos meus amigos acreditam que devemos abandonar a palavra evangélico. Eu não. Simplesmente anseio para que possamos honrar o significado do nosso nome.

sábado, 29 de maio de 2010

Prazo de validade...

Existem coisas que não tolero mais, a mentira é uma delas, não me refiro a mentiras grandes, dessas que falam sobre Deus ou Darwin; mas de mentiras pequenas, dessa que falam em ir sem a mínima pretensão de sair do lugar, falo de dores inexistentes ou simplesmente de fantasias invencíveis.
Não tolero mais o mau uso do verbo amar.
Não tolero os que não me aceitam com meus amores, meus amigos, meus sonhos ou minhas intolerâncias, meus Miltons, meu jazz, blues, meu time...
Acho mesmo que isso é reflexo da idade, a gente vai envelhecendo e percebe que todo o esforço para entender e aceitar as pessoas não tem valido a pena, isso lhes deu o direito de domarem meus sentimentos e aprisionarem tudo que eu sou como homem.
Reconheço que estar envelhecendo é bom, (mesmo que no momento eu esteja um pouco preocupado de como isso me afetará daqui a 30 anos) que as dores piores já passaram (ou simplesmente eu saiba lidar com elas de agora em diante), que meus ouvidos estejam mais sensíveis para a boa música e indiferente para as dores alheias...
Me incomodo ainda com a teimosia, muito mais do que com a burrice...
Me incomodo com o Deus que se incomoda mais com os homossexuais do que com os corruptos...
Me incomodo mais com o impacto do que com a queda em si...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

VOAR NÃO É PARA TOLOS


Há muito tempo a humanidade era dividida em três grupos, os que voavam, os que tinham asas e não sabiam voar e os que não as tinham.
Cansados de serem explorados os que tinham asas resolveram marcar uma grande assembléia entre si e os que não tinham asas.
Depois de muito discutirem resolveram que a melhor solução seria que se juntassem com os que não tinham asas para lutarem pelos seus direitos.
Os que não tinha asas acharam boa a idéia de se juntarem com os que tinham asas e não voavam, pois era o mais perto possível que poderiam chegar dos que voavam.
Então os dois grupos se juntaram e pensaram que eram um grupo só, resolveram fazer uma revolução e iriam atrás de seus direitos, mesmo que os sem asas não soubessem bem o que isso significava.
Num desses belos pôr do sol um dos lideres do grupo (um desses que tinham asas) descansava suas penas sobre o penhasco, quando recebeu com grande surpresa um dos lideres dos que voavam.
- Salve nobre amigo, vejo que aprecia um belo pôr do sol.
- Sem dúvida que aprecio, entretanto para chegar a esse penhasco demorei mais de três dias e três noites...
- Ah... para mim é muito fácil estar aqui...
- É, imagino – disse o que tinha asas mas não voava, sentindo-se humilhado.
- Posso ensina-lo a voar, poderás então ver que maravilha é ver todo o nosso vale do alto...
- Como?
- Ah... meu amigo, é muito simples, em apenas uma lição te ensinarei, podes me encontrar aqui na quinta-feira da próxima semana?
- Claro que sim.
Despediram-se e cada um seguiu seu rumo.
Na reunião de sábado entre os que tinham asas e os que não tinham, o então líder ficou mudo quase todo o tempo. Falou depois com alguns amigos que aquilo tudo não daria em nada, pois se desde o principio dos tempos que a vida era assim não tinham porque mudar, era a lei da natureza, uma regra que teriam que obedecer sempre.
Um a um foi conversando, ora com um dos lideres dos que tinham asas, ora com um dos que não tinham asas...
Aos poucos foi convencendo a todos que aquilo tudo era uma grande perda de tempo, que nada mudaria.
Como resultado na reunião convocada para a segunda-feira seguinte poucos compareceram e na de terça-feira mais nenhuma pessoa se fez presente...
Na quinta-feira lá estava ele no local que havia marcado, banho tomado, penas lustradas e até o bico tinha recebido uma dose especial de creme para bico.
Não demorou muito e um dos que voavam apareceu, era outro representante do grupo, um cara mau encarado, de penas escuras e mal cuidadas, monossilábico e grunhia entre cada palavra.
- Queres aprender a voar?
- Sim, és meu professor?
- Sou...
- Salta desse precipício que te acompanharei dando todas as dicas necessárias.
Confiantemente o que tinha asa e não sabia voar saltou para a morte eminente.
Enquanto isso o representante dos que voavam rumou em direção ao horizonte...
(David, Euclides da Cunha, quarta-feira, 26 de maio de 2010).

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Saudade

Partiste assim,
num trem invisível
e levaste o gosto de teu corpo
encravado entre tuas pernas...
Levou-me tudo
as esperanças, os sonhos
e deu-me asas...

Sob a cama deixaste o amor
que ainda me absorve

e eu,
alado e sem forças
permaneço inquieto
lutando contra o que não existe

e esse gosto de areia de cemitério
em minha boca

e esses fantasmas loucos
me fazem esquecer que o que já foi já era
e não há mais nada
senão essa dor manca de ser eu
o menos conhecido de todos os solitários
nesse quarto de ilusão....

(David, maio de 2010)

O teu riso













Pablo Neruda



Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar, mas não

me tires o teu riso.


Não me tires a rosa,

a lança que desfolhas,

a água que de súbito

brota da tua alegria,

a repentina onda

de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.