Tenho vontade de ir.
De seguir para qualquer lugar do mundo, pode haver sol, chuva, neve, que não me importo. Apenas quero ir em frente.
Esquecer os que me esquecem, sujar meu corpo de lama, mas que seja de lama nova, uma lama que eu ainda não conheça sua densidade ou seu cheiro, uma lama que não conheça minha liquidez e minha alma inodora.
Sim, que vontade que tenho de ir, seguindo o negrume do asfalto, acompanhar com carinho cada curva da estrada, cada subida ou descida...
Não vou levar telefone, note-books, internete, GPS...
Só levarei a mochila e nela uma foto dela, para jogar na Patagônia, quando um dia desses passar por lá.
sábado, 23 de outubro de 2010
Homem bom merece chifre
Estávamos na praça, domingo de manhã, tinha chovido a noite toda, a cidade estava lavada, mas Olavo não faltava a nosso encontro semanal, fizesse sol ou chuva, e como eu não estva nem um pouco a fim de suas cobranças durante a semana, perdi o amor de mais uns minutos sob os lençóis e fui prá praça ainda dormindo.
Nossos encontros já duravam uns 40 anos, raramente perdiamos nosso minutos de conversa, às vezes nem conversávamos direito, se o assunto fosse muito triste, como no dia da morte de Bazé, que num acidente foram-se ela, a filha e a neta, a gente nem conversava, ficávamos parados, olhando para o pé de figo, pensando...
Quando cheguei ela já estava, apoiado o queixo na bengala e com olhar de desaprovação me mostrou Edésio, o bêbado da cidade ao seu lado tomando um copo de mingal do Alcides...
Depois de receber do Alcides o meu copo Edésio nos saiu com essa:
-Mulher gosta é de ser humilhada, de ser maltratada... Vê eu, um homem bom, sempre cuidei dos meninos, tratava bem Antonia, e no que deu? Chifre... foi isso chifre...
na época quando eu tratava ela mau, era doidinha por mim, depois caí na besteira e no que deu?? fala aí véi, fala aí...
-Chifre - dissemos em uníssono...
Edésio era nosso amigo de infância, fomos até sócios na difusora, mas depois que Antonia foi embora com o mágico do Circo Portugal (Alegria não faz mal), ele se enveredou pela cachaça e acabara assim...
- Sexo oral é humilhação, mulher que chupa, que gosta... é porque gosta de ser humilhada, pisada, tratada como uma vadia...
Soubemos que Antonia sofreu muito nas mãos no Misterioso Wagner, e que voltou anos mais tarde arrependida, mas depois o Mágico veio buscá-la de volta...
Ninguém ousava questionar Edésio quando ele estava assim, tínhamos que concordar...
-Homem bom merece o que????
- Chifre, Edésio, homem bom merece chifre...
Edésio riu seu riso franco e banguela...
O dia estava lindo...
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Nosso Mundo!
Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu amor eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…
Os meus sonhos agora são mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!
A vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!
Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!…
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Não Gosto de Festas
"A presente terra pode ser levada a sério em sua dignidade, sua glória, sua maldição..."
(Dietrich Bonhoeffer, em carta de 1940 a Theodor Litt)
Eu me sentia culpado por não gostar de festas, de não gostar de multidões, onde centenas de milhares de pessoas pulam, dançam, bebem, te empurram, te xingam e se dizem felizes.
Não eu não gosto de festas! Está decidido, não e não! Falo de festas onde as pessoas estão arrumadas, cheirosas, e se sentindo melhores que todos os outros que não estão ali; falo de festas onde tem musica alta e gente dançando (não sei dançar, seria esse o motivo?); falo dessas onde você tem que pagar para ouvir música que você não gosta (nunca tocam as bachianas nas festas em que vou); falo das que os estrogenos e os testosteronas se esbarram e pedem desculpas querendo se devorarem um ao outro; falo de festas infantis também, onde os adultos enchem a cara de cerveja e brigam com as crianças por estarem correndo e estourando os balões.
Não pensem que não gosto de gente feliz. Gosto, gosto muito de gente feliz, mas feliz de verdade, não a felicidade que termina na quarta-feira de cinzas ou na segunda com uma ressaca que não lhes permitam produzir bem no trabalho até ao meio dia.
Não me sinto mais na obrigação de gostar de festas (nem as religiosas me interessam mais), estou ficando mesmo velho e começando a me preparar para coisas mais fúnebres, como começar a perder parentes e amigos queridos, e as festas, nesses momentos me parecem uma ofensa, me parecem ofensa porque perdi as esperanças de que o mundo possa ser melhor, de que a religião possa trazer algume beneficio, que a cura da AIDS possa acontecer a qualquer momento, perdi todas as esperanças de que os políticos resolvam os problemas da saúde, educação, segurança e outras mazelas de nosso país...
Essa desesperança, como no texto de Paulo Brabo que posto aqui, me desautoriza a exercer a auto-ilusão, num momento em que uma música eletrônica, ou um trio elétrico me estoura os tímpanos...
Queria uma rede, uma morena de olhos verdes com cheiro de flor de laranjeira, uma água fria da moringa e uma sanfona branca tocando Luiz Gonzaga... seria uma festa, mas seria só minha, é que quando se vai envelhecendo, as alegrias e as dores parecem cada vez mais pessoais e solitárias...
(Dietrich Bonhoeffer, em carta de 1940 a Theodor Litt)
Eu me sentia culpado por não gostar de festas, de não gostar de multidões, onde centenas de milhares de pessoas pulam, dançam, bebem, te empurram, te xingam e se dizem felizes.
Não eu não gosto de festas! Está decidido, não e não! Falo de festas onde as pessoas estão arrumadas, cheirosas, e se sentindo melhores que todos os outros que não estão ali; falo de festas onde tem musica alta e gente dançando (não sei dançar, seria esse o motivo?); falo dessas onde você tem que pagar para ouvir música que você não gosta (nunca tocam as bachianas nas festas em que vou); falo das que os estrogenos e os testosteronas se esbarram e pedem desculpas querendo se devorarem um ao outro; falo de festas infantis também, onde os adultos enchem a cara de cerveja e brigam com as crianças por estarem correndo e estourando os balões.
Não pensem que não gosto de gente feliz. Gosto, gosto muito de gente feliz, mas feliz de verdade, não a felicidade que termina na quarta-feira de cinzas ou na segunda com uma ressaca que não lhes permitam produzir bem no trabalho até ao meio dia.
Não me sinto mais na obrigação de gostar de festas (nem as religiosas me interessam mais), estou ficando mesmo velho e começando a me preparar para coisas mais fúnebres, como começar a perder parentes e amigos queridos, e as festas, nesses momentos me parecem uma ofensa, me parecem ofensa porque perdi as esperanças de que o mundo possa ser melhor, de que a religião possa trazer algume beneficio, que a cura da AIDS possa acontecer a qualquer momento, perdi todas as esperanças de que os políticos resolvam os problemas da saúde, educação, segurança e outras mazelas de nosso país...
Essa desesperança, como no texto de Paulo Brabo que posto aqui, me desautoriza a exercer a auto-ilusão, num momento em que uma música eletrônica, ou um trio elétrico me estoura os tímpanos...
Queria uma rede, uma morena de olhos verdes com cheiro de flor de laranjeira, uma água fria da moringa e uma sanfona branca tocando Luiz Gonzaga... seria uma festa, mas seria só minha, é que quando se vai envelhecendo, as alegrias e as dores parecem cada vez mais pessoais e solitárias...
Qualquer um

Por Paulo Brabo no Bacia das Almas
Outro dia o filho que não tenho, e que já é grandinho o bastante para fazer esse tipo de pergunta, perguntou-me, olhando para o mundo, se existe esperança.
Era época de Natal e ele queria que minha resposta o enchesse de inspiração e de bons sentimentos; uma resposta que o capacitasse a abraçar o futuro com olhos brilhantes e pés otimistas. Queria, em outras palavras, uma mensagem.
– Esta, meu filho, é uma resposta que palavras não podem dar – menti o menos que pude, e invoquei não sei de onde um sorriso.
Quando ele for mais velho direi que não, que não há qualquer esperança. Andaremos lado a lado por um caminho no meio da tarde e confessarei que não enxergo esperança no mundo, nas religiões e instituições e, ainda menos, em mim mesmo. Direi que as belas mensagens otimistas que os homens trocam em ocasiões solenes são distrações que não chegam nem de perto a alterar a dura malha da realidade. As pessoas não se tornarão mais generosas, menos mesquinhas e mais iluminadas, porque vivi quarenta anos e a cada dia me distancio mais, eu mesmo, desse ideal ilusório.
Ele me olhará nos olhos e, sem dizer nada, abrirá um meio sorriso, porque verá que, embora não exista esperança, embora eu esteja convicto de que não há, cultivo ainda assim alguma.
Se tudo der certo, com o passar dos anos ele aprenderá a guardar a esperança como eu: como quem tem vergonha de permanecer criança e continuar olhando com fascinação para a chama de uma vela que qualquer um pode apagar.
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